Há oito anos, um site especializado em cultura pop descreveu “Os Incríveis” como uma espécie de versão familiar de “Watchmen”, frase jogada num parágrafo qualquer e nunca mais testada de verdade. A comparação merece ser levada a sério, porque as coincidências vão além do óbvio.
Duas ressalvas importantes
Antes de qualquer coisa, vale destacar duas ressalvas: aqui o filme de Brad Bird, de 2004, é comparado aos quadrinhos que Alan Moore e Dave Gibbons publicaram entre 1986 e 1987, não à adaptação cinematográfica de 2009; e Bird nunca citou “Watchmen” entre suas influências declaradas, então nada abaixo é acusação de plágio, apenas paralelos temáticos e narrativos.
Nada de capas!
A coincidência mais nítida está nas mortes por acidentes de capa. Em “Watchmen”, um herói da era Minutemen chamado Dólar de Prata trabalhava como relações-públicas para um banco, com uniforme desenhado sem qualquer preocupação prática, e acabou morrendo justamente por causa da própria capa, presa em uma porta giratória. A regra “nada de capas” citada por Edna Mode em “Os Incríveis” ecoa exatamente esse tipo de tragédia absurda vivida pelos heróis aposentados de Watchmen.
Síndrome e Ozymandias: vilões com planos grandiosos
Outro paralelo evidente está nos vilões principais das duas obras. Síndrome, em “Os Incríveis”, e Ozymandias, em “Watchmen”, compartilham a mesma estrutura narrativa: ambos são gênios que planejam eventos catastróficos disfarçados de soluções, e ambos acreditam sinceramente estar fazendo o bem para a humanidade através de métodos extremos.
Na trama dos quadrinhos, Ozymandias mata o Comediante, exila o Doutor Manhattan e destrói metade de Nova York para assustar duas superpotências e evitar uma guerra nuclear. Síndrome é o personagem bem mais rico e emocionalmente enredado na vida do herói; Ozymandias é praticamente uma tese que só aparece de verdade no final. Mas Moore faz a coisa mais difícil: recusa dizer se Ozymandias estava certo, o plano funciona, e Rorschach morre insistindo que não deveria.
Um placar surpreendentemente equilibrado
O placar final entre as duas obras fica surpreendentemente equilibrado. Vale lembrar que James Gunn já deixou claro não pretender trazer os personagens de “Watchmen” para o novo DCU, respeitando o desejo de Alan Moore de manter a obra intocada. “Os Incríveis”, por sua vez, segue lembrado como divisor de águas na Pixar, reforçando como duas obras de gêneros tão distintos podem dialogar de formas inesperadas.
