Crítica: Resident Evil é um terror competente, mas uma adaptação questionável

Depois de sete filmes que envergonharam os fãs, Resident Evil volta aos cinemas sob a direção de Zach Cregger. O resultado é um terror competente e uma ótima homenagem ao survival horror. O problema é que, de Resident Evil mesmo, o novo longa tem pouco mais que o nome.

O trauma que veio antes do filme

Poucas franquias carregam um histórico tão ruim no live-action quanto Resident Evil. Foram seis filmes estrelados por Milla Jovovich que tinham da saga apenas o nome. Depois veio Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, que prometia fidelidade aos jogos e entregou o oposto. Para completar, a série da Netflix enterrou de vez a confiança do público. Não à toa, o anúncio de mais uma tentativa foi recebido com o pé atrás, e o primeiro trailer só aumentou a desconfiança.

Desta vez, porém, havia um nome de peso no comando: Zach Cregger, diretor de Noites Brutais (Barbarian) e A Hora do Mal (Weapons), dois dos maiores sucessos recentes do terror. A expectativa era saber se, nas mãos dele, a maldição das adaptações finalmente seria quebrada.

Um entregador no lugar errado, na hora errada

A história é totalmente original e não traz nenhum personagem conhecido da franquia. O protagonista é Bryan, vivido por Austin Abrams, um entregador de suprimentos médicos: órgãos para cirurgia, frascos de sangue, medicamentos. No fim de um expediente, ele recebe uma tarefa urgente de última hora: levar uma caixa importante ao Hospital Geral de Raccoon City. É aí que o pesadelo começa.

Segundo o próprio Cregger, a ideia é que a trama corra em paralelo aos eventos dos jogos, como se o caos de Resident Evil 2 e Resident Evil 3 estivesse acontecendo em outro canto da cidade. Na prática, porém, o filme não pode ser canônico: a história se passa no presente, com direito a smartphone na mão do protagonista, enquanto os jogos originais acontecem em 1998.

De Resident Evil, quase nada

Aqui mora a maior decepção para o fã. Tirando os nomes Raccoon City e Umbrella, praticamente nada no filme remete à mitologia da saga. Não há menções ou easter eggs de personagens e eventos reconhecíveis. O T-Virus não é citado em momento algum, os zumbis se comportam de forma diferente, e as demais criaturas não lembram nada dos jogos.

Onde o filme acerta: a gameplay virou linguagem

Por outro lado, há um mérito inegável na adaptação, só que ele está na jogabilidade, não na história. O filme abraça os elementos clássicos de gameplay com carinho raro. Bryan começa desarmado, consegue uma escopeta, depois um fuzil, em uma progressão de arsenal digna de videogame.

A munição é escassa, contada bala por bala, e a caixa de cartuchos da escopeta é idêntica à dos jogos. Alguns momentos em primeira pessoa ecoam os capítulos mais recentes da série. Já circula entre os fãs uma definição precisa: o longa não adapta bem Resident Evil, mas adapta muito bem um jogo de survival horror.

Terror bom, comédia demais

Deixando a adaptação de lado, o filme funciona? Em boa parte, sim. Cregger sabe construir tensão, o mistério em torno das criaturas sustenta o suspense e o desespero de Bryan prende a atenção. O que divide opiniões é o tom: a atmosfera de medo é constantemente quebrada por alívios cômicos, e o recurso soa repetitivo depois da metade da projeção.

O protagonista também é o único personagem com algum desenvolvimento real. Seus dilemas com a namorada grávida dão humanidade ao personagem, mas o arco tem pouco impacto na jornada em si. O restante do elenco existe basicamente para morrer, em um padrão que remete aos games.

Veredito

O ato final é o maior tropeço: corrido e confuso, deixa a sensação de que toda a jornada levou a lugar nenhum. No fim das contas, Resident Evil é um terror mediano, uma ótima adaptação do gênero survival horror e uma péssima adaptação de Resident Evil. Pelo menos, depois de tantas vergonhas, dá para dizer que existe um filme com esse nome que vale a sessão — pena que, de Resident Evil, ele só tenha o nome mesmo.

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