Dentro da Marvel Comics, poucos personagens carregam tanto peso simbólico quanto o Capitão América. Desde a Era de Ouro, quando rivalizava diretamente com os grandes nomes da concorrência, Steve Rogers funcionou como uma espécie de bússola moral para todo o universo editorial da casa. Por isso mesmo, uma escolha criativa do meio dos anos 2010 causou tanto barulho entre os leitores: transformar esse símbolo em traidor.
Como nasceu o Capitão América da Hydra
A reviravolta veio em uma publicação de 2016, que revelou sem rodeios que o Capitão América sempre havia sido um infiltrado da Hydra. Não se tratava de um clone nem de uma versão alternativa vinda de outra realidade: era o mesmo herói acompanhado pelos leitores desde os primórdios da própria Marvel, agora reescrito como peça de um plano fascista de décadas.
A história culminou no evento Império Secreto, quando essa versão sombria do herói usa toda sua experiência de estrategista contra os próprios aliados, ajudando a Hydra a tomar o controle dos Estados Unidos. A reação dos fãs foi imediata e hostil — não é difícil entender por quê, já que profanar um símbolo criado por autores judeus às vésperas da Segunda Guerra soa, para muita gente, como um exagero editorial desnecessário.
Mesmo assim, a Marvel tomou uma decisão pouco usual depois da tempestade inicial: em vez de apagar essa versão do personagem, optou por deixá-la latente, disponível para uso futuro.
De prisioneiro dos mutantes ao novo Flag Smasher
Foi exatamente isso que aconteceu durante a Era Krakoa: esse Capitão América sombrio ressurgiu, liberto pela organização Orchis para servir como arma contra os mutantes. A partir daí, ele assumiu uma nova identidade, tornando-se o novo portador do título de Flag Smasher.
A escolha não é aleatória. O Flag Smasher clássico sempre foi retratado como um anarquista disposto a destruir governos em nome da liberdade individual. Ao herdar esse nome, a versão sombria do Capitão inverte completamente a lógica original: ele também quer destruir os governos do mundo, mas para reconstruí-los à imagem da ordem totalitária que o formou.

Um potencial narrativo praticamente intocado
O que chama atenção é o quanto esse potencial segue subaproveitado. Trata-se de um personagem que compartilhou décadas de batalhas, confidências e vitórias ao lado de praticamente todo o panteão de heróis da Marvel — o que significa que ele tem munição emocional para se voltar contra qualquer um deles. Bucky Barnes e Sam Wilson são os alvos óbvios, mas nomes como Thor, Wolverine, Gavião Arqueiro e Feiticeira Escarlate também carregam décadas de confiança depositada em alguém que, segundo a própria história, estava mentindo o tempo todo.
Some-se a isso o carisma natural do personagem, sempre descrito nos quadrinhos como um líder nato capaz de convencer qualquer pessoa a segui-lo até situações extremas. Transposto para essa versão sombria, esse mesmo carisma vira ferramenta de manipulação em massa, com potencial real de erguer um exército pessoal de seguidores fanáticos.
A lição que a Marvel pode tirar da concorrência
Existe um paralelo direto na DC Comics que pode servir de alerta. O Batman Que Ri, criado no evento Dark Nights: Metal, também nasceu como uma ideia poderosa: um Batman corrompido pelo próprio Coringa. O problema veio depois — a editora exagerou na dose, colocando o personagem em praticamente todo lançamento relevante até o público se cansar por completo. Sua morte em Dark Nights: Death Metal foi recebida com alívio por boa parte dos fãs, já saturados com o excesso de exposição.
A Marvel tem, nas mãos, a chance de acertar exatamente onde a rival errou. Manter esse Capitão América sombrio vivo, mas sem forçar sua presença constante, poderia transformá-lo em um antagonista de peso quando realmente necessário, em vez de mais um rosto recorrente que perde força pela repetição.
Uma polêmica que nunca desapareceu de vez
A repercussão da reviravolta de 2016 foi tão grande que a própria editora precisou se pronunciar publicamente, pedindo que os leitores esperassem o desfecho da história antes de tirar conclusões precipitadas. Vale lembrar, também, que a ligação entre a Hydra e os inimigos históricos do herói não nasceu com essa polêmica específica: a própria linhagem do Barão Zemo, um dos maiores adversários de Rogers também nos cinemas, carrega vínculos antigos com a organização.
Resta saber se, algum dia, a Marvel vai decidir explorar de verdade o potencial desse vilão que criou quase sem querer.
