Boruto TBV desperdiça oportunidade histórica com o Inojin

Quando Boruto começou, as expectativas eram baixas — continuar a história de Naruto parecia uma missão quase impossível sem cair na sombra do original. Mas, aos poucos, o mangá foi construindo uma identidade própria, justamente porque ousou. O protagonista não era um Naruto 2.0: era mimado, arrogante, nascido no reconhecimento que Naruto teve que conquistar. Essa inversão funcionava como uma metalinguagem muito inteligente. Em Boruto: Two Blue Vortex, essa lógica foi ainda mais longe.

Apesar das críticas que sempre acompanharam a série, Boruto TBV vinha acertando em cheio nos últimos capítulos. O clima mais pesado, a evolução da Himawari, o crescimento da Sarada e personagens secundários ganhando espaço fizeram muita gente voltar a acompanhar o mangá. Mas então aconteceu o que pode ser o maior erro narrativo da obra até agora — justamente no momento em que ela tinha tudo para dar um passo histórico.

O Inojin finalmente tinha o seu momento

Quase ninguém apostava que o Inojin se tornaria um dos destaques do arco atual. Mas aconteceu — e de uma forma muito bem construída. Durante o embate contra Mamushi, o personagem exibiu uma estratégia brilhante ao perceber que o inimigo funcionava como uma consciência coletiva: um exército inteiro compartilhando uma única mente.

A resposta do Inojin foi usar a técnica de transferência mental de maneira genial. Ele assumiu parcialmente o controle do vilão e o forçou a destruir os próprios olhos. Por estar conectado ao inimigo naquele momento, o próprio Inojin sofreu a mesma consequência — e teve os olhos perfurados junto. Era o tipo de cena que parecia sinalizar que Boruto TBV finalmente teria coragem de impor consequências reais.

O mais fascinante é o caminho que isso abriria para o personagem. Inojin é artista, sensorial, estratégico. Ele poderia se transformar em uma espécie de “Demolidor ninja”, dependendo dos outros sentidos para combater — ou algo próximo da Toph em Avatar, transformando uma limitação em uma nova forma de poder. Seria um personagem completamente único dentro da franquia.

Inojin em Boruto Two Blue Vortex
Reprodução/Manga Plus

O mangá criou o peso… e depois descartou

O problema apareceu no capítulo seguinte. O Inojin simplesmente reaparece completamente curado, graças aos poderes da Himawari. E isso desfaz boa parte do impacto da luta — não porque curas sejam impossíveis no universo de Naruto, mas porque o próprio mangá havia acabado de estabelecer o contrário.

No mesmo capítulo em que a Sarada apresentava sinais graves de cegueira pelo uso do Mangekyou Sharingan, a Himawari não conseguiu restaurar completamente a visão dela. Ou seja: o roteiro havia deixado claro que aquela cura tinha limites. Os leitores naturalmente esperavam que o Inojin ficasse permanentemente cego — era o que fazia sentido narrativo e dava peso real ao combate.

Mas o mangá voltou atrás. E isso transmite uma sensação estranha — como se os autores tivessem medo de assumir o impacto de suas próprias escolhas. É um problema sério em uma história onde os vilões supostamente atingiram um nível de ameaça sem precedentes.

O pior é que o caso do Inojin seria perfeito exatamente porque não mataria o personagem. Pelo contrário: ele continuaria ativo, relevante e com uma nova camada narrativa. Aprender a lutar sem enxergar poderia render arcos emocionais de altíssimo nível.

Inojin e Himawari em Boruto
Reprodução/Manga Plus

A Himawari virou uma resolução fácil demais

A Himawari está absurdamente poderosa em Boruto TBV — e isso é ótimo de ver. O problema começa quando ela passa a resolver tudo sem esforço aparente: o roteiro perde tensão. Surge aquela sensação de “relaxa, a Himawari cura depois” — perigoso para qualquer shonen, especialmente em uma obra que já enfrenta críticas sobre a falta de consequências emocionais.

Dá para argumentar que o Inojin calculou sobreviver por estar perto dela, o que faz sentido dentro da lógica do plano. Mas narrativamente, a sensação que fica é de oportunidade desperdiçada. O mangá tinha nas mãos a chance de criar um dos momentos mais ousados da franquia e preferiu manter o status quo.

Boruto ainda tem potencial — mas precisa parar de recuar

O mais frustrante é que Boruto: Two Blue Vortex continua cheio de boas ideias. O tom é mais sombrio, os personagens amadureceram, as ameaças escalaram. O problema é que o mangá hesita exatamente quando deveria assumir os maiores riscos.

O arco do Inojin poderia ter se tornado um divisor de águas — o tipo de consequência que os fãs lembrariam por anos, comparável ao impacto emocional que Naruto, Hunter x Hunter e Jujutsu Kaisen causam quando deixam marcas permanentes nos personagens.

No fim, o capítulo ainda entrega momentos de qualidade e o plano do Inojin continua sendo brilhante. Mas fica o gosto amargo de chance desperdiçada. Porque uma história não precisa matar personagens para criar peso — basta ter coragem de mudá-los para sempre.

Carregando…
Publicidade
ESPAÇO PUBLICITÁRIO · 970×90