Meses depois da estreia do Batman, um herói de capa e tema de morcego chamado Black Bat chegou às bancas americanas. A semelhança era tanta que as editoras trocaram ameaças de processo. Conheça a história do vigilante que dividiu 1939 com o Cavaleiro das Trevas.
A criação: um promotor cego que enxerga no escuro
O Black Bat mais famoso nasceu em 1938, quando o editor Leo Margulies, da Thrilling Publications, encomendou ao escritor Norman A. Daniels um novo herói para estrelar a revista pulp “Black Book Detective”. Publicada sob o pseudônimo coletivo G. Wayson Jones, a primeira aventura chegou às bancas na edição de julho de 1939. Antes dele, a mesma editora já havia usado o nome em contos policiais de 1933, mas foi a versão de Daniels que entrou para a história.
A origem do personagem é puro pulp. Tony Quinn, promotor de justiça implacável, fica cego ao ter ácido atirado no rosto por um capanga do chefão Oliver Snate durante um julgamento. A carreira parece acabada até que uma cirurgia secreta transplanta para ele as córneas de um policial moribundo. Quinn não apenas volta a enxergar: ganha visão perfeita no escuro. Somando isso aos sentidos aguçados que desenvolveu enquanto cego, ele veste um traje negro com motivos de morcego para caçar os criminosos que escapam da lei, mantendo em público a fachada de advogado cego.
O imbróglio jurídico com o Batman
O detalhe explosivo está no calendário. O Batman estreou em “Detective Comics” #27, com data de capa de maio de 1939, poucas semanas antes de o Black Bat chegar às bancas. Dois vigilantes urbanos, vestidos de morcego, surgindo praticamente juntos. O resultado: a DC (então Detective Comics, Inc.) e a Thrilling passaram a trocar ameaças de processo por plágio, cada lado acusando o outro de cópia. Segundo registros de historiadores especializados em ficção pulp, os personagens foram desenvolvidos de forma independente, e até hoje não há consenso sobre quem, se é que alguém, se inspirou em quem.
A disputa nunca chegou aos tribunais. As empresas fecharam um acordo extrajudicial curioso: cada morcego ficaria no seu formato, com o Batman fora das revistas pulp e o Black Bat fora dos quadrinhos. Um detalhe irônico sobreviveu à briga: as luvas com barbatanas que se tornaram marca registrada do visual do Batman teriam sido inspiradas justamente no design do rival. A influência não parou aí: a origem com ácido no rosto ecoaria anos depois na criação do Duas-Caras, em 1942, enquanto o conceito do herói cego com visão noturna reapareceria no Doutor Meia-Noite, ambos da própria DC.
Uma trajetória mais longa que a de muitos gigantes
Enquanto o Batman virava fenômeno dos quadrinhos, o Black Bat construía uma carreira sólida nas páginas pulp. Tony Quinn estrelou mais de 60 histórias entre 1939 e 1953, contando com aliados fiéis como o ex-golpista Silk Kirby, o brutamontes Butch O’Leary e a corajosa Carol Baldwin.
A longevidade do personagem impressiona: ele sobreviveu nas bancas por mais tempo que lendas como Doc Savage e The Shadow, sendo cancelado pouco antes do Phantom Detective, o último grande herói pulp em circulação.
Como está o Black Bat hoje
Com o fim da era pulp, o personagem caiu em domínio público, o que abriu caminho para revivals. O interesse foi reacendido nos anos 1970, quando o historiador de quadrinhos Jim Steranko destacou as semelhanças com o Batman. Em 2013, a Dynamite lançou uma série moderna do personagem, reimaginando Quinn como advogado de defesa atormentado pelo próprio passado, mantendo a editora próxima do material original de 1939 para preservar a identidade pulp do herói.
A ironia final fica por conta da própria DC. Desde 2011, a editora usa o codinome “Black Bat” dentro da família do Batman: ele foi adotado por Cassandra Cain, ex-Batgirl, em “Batman Incorporated”. Mais de 80 anos depois da quase batalha judicial, o nome que um dia ameaçou o Cavaleiro das Trevas acabou absorvido pelo seu universo. Para o velho Tony Quinn, resta o posto de curiosidade histórica fascinante: o outro homem-morcego de 1939.
