Entre os grandes vilões dos quadrinhos da Marvel, poucos carregam tanta história e tanto poder quanto Apocalipse. En Sabah Nur enfrenta os X-Men desde X-Factor (Vol. 1) #5 e, quase instantaneamente, se firmou entre os nomes mais temidos da galeria mutante, ao lado de Magneto, Senhor Sinistro, Cassandra Nova e o Clube do Inferno.
O curioso é que o auge do personagem já ficou bem para trás. A fase em que Apocalipse realmente funcionou como um grande vilão aconteceu majoritariamente em X-Factor, revista publicada antes do reboot de 1991 — o maior já feito na história dos X-Men, e do qual, ironicamente, ele nem sequer participou.

Como X-Factor transformou En Sabah Nur em um vilão de outro nível
Antes do reboot que originou X-Men (Vol. 2) #1, Fabulosos X-Men (Vol. 1) #281, X-Factor (Vol. 1) #71 e X-Force (Vol. 1) #1, Apocalipse já vinha sendo construído havia anos como o principal antagonista de X-Factor — revista estrelada pelos cinco X-Men originais e que entregou, na visão de boa parte dos leitores, algumas das melhores histórias já feitas sobre mutantes.
Os roteiristas Bob Layton e, mais tarde, Louise Simonson, souberam explorar bem o arquétipo clássico do “senhor das trevas” que Apocalipse representava. A introdução dos Cavaleiros foi essencial nesse processo, especialmente o arco envolvendo Arcanjo, que mostrou o quão sedutor o poder do vilão podia ser. Sua tecnologia de origem Celestial também elevou a ameaça a outro patamar.
A obsessão do personagem por Nathan Summers — o Ciclope-bebê enviado ao futuro que se tornaria Cable — deu à rivalidade uma camada pessoal rara para a época. Tudo isso culminou no arco Endgame, publicado em X-Factor (Vol. 1) #65-68 e escrito por Chris Claremont, Jim Lee e Whilce Portacio, quando Ciclope alcançou um novo patamar de poder e aparentemente encerrou a ameaça de vez.
Por que nada depois chegou perto daquele nível
A “morte” durou pouco: já em X-Cutioner’s Song, de 1992, o vilão voltou à ativa, embora só tenha recuperado real relevância perto do fim daquela década, quando se revelou que ele governava o futuro sombrio para onde Cable havia sido enviado. No fundo, porém, a essência do personagem mudava pouco — sempre a mesma busca por poder absoluto através da manipulação de eventos.

Passados 35 anos, dá para olhar com mais distância para essa trajetória: fora do período de X-Factor, Apocalipse pouco fez para manter o posto entre os grandes vilões da Marvel. Entre 1991 e 1997, a maior parte de suas aparições girou em torno de ressurreições e histórias de pouca relevância — com a notável exceção do universo alternativo de Era do Apocalipse, um dos raros pontos altos do período. Depois dos anos 2000, o padrão se repetiu: Cavaleiros, Celestiais, sobrevivência do mais apto, sempre a mesma fórmula.
A era Krakoa tentou mudar tudo — e nem sempre funcionou
Com a chegada da era Krakoa, Apocalipse ganhou um dos retcons mais discutidos de sua história: revelou-se que ele havia liderado Okkara, o supercontinente mutante destruído por uma invasão demoníaca vinda de Amenth, e que, na verdade, agira de forma bem mais altruísta ao longo dos séculos do que os fãs imaginavam.
A mudança serviu para viabilizar arcos como X of Swords e Excalibur, transformando o antigo vilão em uma espécie de xamã mutante — mas para muitos leitores, isso acabou diluindo justamente o que fazia dele um antagonista tão eficaz. Ainda assim, o personagem teve bons momentos mais recentes, como Ascensão de Apocalipse (parcialmente adaptado em X-Men ’97) e sua passagem por Uncanny X-Force, provas de que a mitologia em torno de En Sabah Nur ainda tem muito a explorar, caso a Marvel decida investir nele com a mesma paciência que rendeu frutos em X-Factor.
