Poucas franquias de games construíram uma mitologia tão densa quanto “Diablo”. O que começou em 1996 como uma descida claustrofóbica às catacumbas de uma vila amaldiçoada se transformou, ao longo de vários jogos e expansões, em uma cosmologia inteira de fantasia sombria. Este guia percorre a linha do tempo completa, da criação do universo até o anúncio de “Diablo V”.
A origem: Anu, Tathamet e o nascimento do universo
No início não existiam céu nem inferno, apenas Anu, um ser único que continha em si o bem e o mal, a luz e a escuridão. Buscando a perfeição absoluta, Anu expeliu de si tudo o que considerava impuro. Esse material rejeitado ganhou forma própria e se tornou Tathamet, uma besta-dragão de sete cabeças que encarnava o caos.
Anu e Tathamet travaram uma batalha que terminou na destruição mútua dos dois, e foi dessa colisão que o universo nasceu. Dos restos de Tathamet surgiram os Infernos Ardentes e os demônios, com as sete cabeças do dragão dando origem aos sete Males: os três Primordiais (Diablo, Mefisto e Baal) e os quatro Menores (Andariel, Duriel, Belial e Azmodan). Da essência de Anu nasceram os Altos Céus e os primeiros anjos, entre eles o Conselho Angiris.
Inarius, Lilith e a fundação de Santuário
Em meio ao Conflito Eterno entre anjos e demônios, o anjo Inarius e Lilith, filha de Mefisto, chegaram à mesma conclusão: aquela guerra não fazia sentido. Juntos, roubaram a Pedra do Mundo — relíquia que restou de Anu, capaz de moldar realidades — e criaram um refúgio oculto de ambos os lados: Santuário.
O problema surgiu quando a convivência entre anjos e demônios gerou descendentes híbridos, os nephalem, mais poderosos que os próprios pais. Entre eles nasceu Rathma, filho de Lilith e Inarius, que rejeitou os caminhos autoritários dos pais e fundou, através de seu discípulo Kalan, a ordem dos necromantes de Santuário. A divergência sobre o que fazer com os nephalem rachou a aliança: Lilith os via como um exército, Inarius como uma ameaça. Após um confronto violento, Inarius baniu Lilith para o Vazio.
A Guerra do Pecado
Com Lilith fora do caminho, os Males Primordiais descobriram Santuário e fundaram o culto do Triuno, liderado por Lucion, filho de Mefisto. Inarius respondeu criando a Catedral da Luz. O confronto entre as duas fés ficou conhecido como Guerra do Pecado, uma disputa pelas almas da humanidade.
Lilith escapou do Vazio e reativou poderes nephalem adormecidos em humanos, entre eles o fazendeiro Uldyssian ul-Diomed, que reuniu outros despertos e virou uma terceira força no conflito. Temendo que o poder descontrolado destruísse Santuário, Uldyssian se sacrificou para cortar a ligação de Inarius com a Pedra do Mundo. O Conselho Angiris debateu exterminar a humanidade, mas o arcanjo Tyrael, comovido pelo sacrifício, votou pela sobrevivência dos mortais. Um acordo de não intervenção foi firmado entre Céu e Inferno, e as memórias da guerra foram apagadas da humanidade.
O Exílio Sombrio
Nos Infernos Ardentes, os Males Menores Azmodan e Belial lideraram uma revolta contra os três irmãos Primordiais, banindo Diablo, Mefisto e Baal para o mundo mortal — episódio batizado de Exílio Sombrio. Para conter a ameaça, Tyrael fundou os Horadrim, ordem de magos encarregada de aprisionar demônios em Pedras das Almas. Um deles, Tal Rasha, sacrificou-se para conter Baal dentro do próprio corpo.
Diablo I: a queda de Tristram
Séculos depois, a Pedra da Alma que prendia Diablo estava enterrada sob a Catedral de Tristram. Libertado pelo corrupto arcebispo Lazarus, o Senhor do Terror tenta possuir o rei Leoric sem sucesso e acaba tomando o corpo do filho mais novo do rei, Albrecht. Aidan, irmão mais velho de Albrecht, desce às catacumbas, derrota Diablo e, acreditando ser forte o bastante, crava a Pedra da Alma rachada na própria testa — decisão que o transforma lentamente no Errante Sombrio.
Diablo II: a libertação dos irmãos
Perseguido por um grupo de heróis, o Errante Sombrio chega ao túmulo de Tal Rasha, onde um homem comum chamado Marius acaba libertando Baal sem querer. Os heróis seguem até Kurast, onde Diablo, Mefisto e Baal se reúnem antes de Diablo e Mefisto serem derrotados. Baal, porém, recupera sua Pedra da Alma ao enganar Marius disfarçado de Tyrael e mata o pobre homem.
Na expansão “Lord of Destruction”, Baal marcha até o Monte Arreat para corromper a Pedra do Mundo. Os heróis o derrotam, mas tarde demais: Tyrael é forçado a destruir a própria Pedra do Mundo para impedir a corrupção, deixando Santuário mais vulnerável e liberando o potencial nephalem reprimido na humanidade.
Diablo Immortal: a ponte entre os jogos
Ambientado cerca de cinco anos após a destruição da Pedra do Mundo, “Diablo Immortal” acompanha a disputa pelos fragmentos espalhados da relíquia, cobiçados por Skarn, o Senhor da Perdição, enquanto Deckard Cain tenta recolhê-los antes que caiam em mãos erradas.
Diablo III: o Mal Supremo
Em “Diablo III”, Tyrael renuncia à própria condição angelical e cai em Santuário como mortal. Deckard Cain, guardião da memória do mundo, é morto no início da trama pela bruxa Maghda, deixando sua sobrinha Leah sem seu maior protetor. A grande reviravolta revela que Adria, mãe de Leah, sempre serviu a Diablo e preparou a própria filha — que é também filha de Aidan — como hospedeira. Diablo absorve as essências dos sete Males através da Pedra Negra das Almas e se torna o Mal Supremo, mas é derrotado nos Altos Céus.
Na expansão “Reaper of Souls”, o ex-arcanjo Malthael se torna o Anjo da Morte e tenta exterminar a humanidade por carregar herança demoníaca. Ele é derrotado, mas a Pedra Negra das Almas é destruída no confronto, libertando novamente todos os sete Males.
Diablo IV: o retorno de Lilith
Cerca de cinquenta anos depois, um culto liderado por Elias traz Lilith de volta do Vazio. Ela se apresenta não como vilã simples, mas como uma mãe que quer libertar a humanidade da influência de Céu e Inferno, ainda que por métodos brutais. Seu plano inclui absorver a essência do enfraquecido Mefisto.
Inarius, livre de sua prisão, busca a Chave do Inferno guardada por Rathma para cumprir uma profecia que o levaria de volta aos Altos Céus. Ao ser recusado pelo próprio filho, ele o mata. Mais tarde, Inarius enfrenta Lilith nos Infernos Ardentes; acredita tê-la derrotado, mas ela sobrevive e o mata em um momento de fragilidade emocional.
Enquanto Lilith segue rumo a Mefisto, a jovem estudiosa Neyrelle aprisiona a essência do Senhor do Ódio em uma Pedra da Alma, impedindo Lilith de absorver seu poder. O Viajante, protagonista do jogo, derrota Lilith, que antes de desaparecer avisa que, sem ela, Santuário não terá como resistir aos Males Primordiais.
Vessel of Hatred e Lord of Hatred: o fim da Era do Ódio
Na expansão “Vessel of Hatred”, Neyrelle viaja a Nahantu tentando selar Mefisto de vez, mas acaba espalhando a corrupção do demônio pela região. No clímax, Mefisto consegue se apossar do corpo do líder espiritual Akarat e escapar, passando a caminhar por Santuário disfarçado de santo.
Lançada em abril de 2026, “Lord of Hatred” encerra esse arco. Mefisto, na forma de Akarat, busca as Fontes da Criação em Skovos. A expansão abre com a morte de Neyrelle, morta pelo próprio Mefisto após descobrir uma profecia sobre uma arma capaz de vencê-lo. No confronto final, o Viajante usa uma lâmina forjada a partir do osso de Lilith para banir Mefisto para o Vazio, encerrando a Era do Ódio sobre Santuário.
O que vem por aí: Diablo V
Durante a BlizzCon 2026, a Blizzard revelou oficialmente “Diablo V”, previsto para o segundo trimestre de 2029, com uma premissa que muda tudo: desta vez, os heróis falharam, e Diablo venceu, conquistando Santuário e passando a governar a partir de Hespéria.
O jogador assumirá o papel do Herdeiro de Hespéria, sobrevivente que atravessa o mundo devastado em uma caravana itinerante, já que cidades fixas deixaram de existir. Foram confirmadas três classes iniciais: o retorno do Caçador de Demônios e do Monge, além da inédita classe Cavaleiro Pestilento. A Blizzard também confirmou o retorno da Amazona a “Diablo IV” em 2027, uma série animada em parceria com a Netflix e a chegada de “Diablo IV” ao Nintendo Switch 2.
