Habeas Corpus já está na Netflix. O primeiro drama jurídico brasileiro da plataforma acompanha uma professora de Direito que reúne alunos para reexaminar a condenação de um jovem. A história nasceu do trabalho de uma organização real.
Do que trata a série
Inez Franco, papel de Marjorie Estiano, largou os tribunais pela universidade. Na faculdade, ela monta um grupo de revisão criminal para investigar o processo de Jonathan, vivido por Hypólito, condenado a 47 anos. O grupo tem uma peça fora do lugar: Marina, personagem de Any Gabrielly, é uma bolsista brilhante que entra na equipe por motivos pessoais desconhecidos da professora. Do outro lado está o passado dela — Vladimir Brichta interpreta Murilo, ex-marido e antigo sócio de Inez, que agora representa a parte contrária.
A diferença entre habeas corpus e revisão criminal
Os dois instrumentos não são sinônimos. O habeas corpus vale para quem sofre ou corre risco de sofrer restrição ilegal ao direito de ir e vir. A revisão criminal funciona de outro jeito: ela permite reexaminar uma condenação já definitiva em situações previstas em lei, como o surgimento de novas provas de inocência. É esse segundo caminho que a turma percorre — o motivo do título, segundo a Netflix, só se revela ao longo da temporada.
A origem real da história
A série parte do trabalho do Innocence Project Brasil, organização que investiga condenações definitivas em busca de novas provas e atua nos tribunais para revertê-las. A ideia nasceu de uma conversa: o criador e diretor-geral Luiz Villaça conheceu Flávia Rahal, uma das fundadoras do projeto, e ao ouvir quantos inocentes cumprem pena no país, decidiu levar o assunto à ficção. Os personagens, porém, são ficcionais — a trajetória de Jonathan se inspira em um processo real acompanhado pela associação, mas não retrata a pessoa envolvida naquele caso.
Advogados no set, atores no fórum
A pesquisa foi além do roteiro. Dois times de consultoria acompanharam a produção, e integrantes da equipe assistiram a audiências reais. A protagonista fez o próprio dever de casa: Marjorie Estiano acompanhou trechos de três julgamentos e prestou atenção à forma como os advogados constroem os argumentos.
“O ritual de um julgamento e a performance dos advogados foi algo bem singular. A frase ‘não basta ser verdade, tem que parecer verdade’ saltou aos meus olhos e ouvidos.”
— Marjorie Estiano
Os números da produção
A escala explica os oito episódios: as 401 páginas de roteiro viraram 527 cenas, gravadas em 102 diárias e 72 sets, com 1.871 figurantes. Uma escolha foi inédita para a equipe: a produção gravou as cenas em ordem cronológica, o que ajudou os atores a acompanhar a evolução dos personagens. A coincidência mais curiosa veio da vida real — durante a escrita dos episódios, a Justiça convocou uma das roteiristas para participar de um júri.
A São Paulo da série
As locações são reconhecíveis: a Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, recebeu parte das cenas, ao lado da Sala São Paulo. Prédios tombados impuseram limites — a equipe de arte levava cadeiras e elementos de tribunal sem alterar a arquitetura, e as diárias no Largo São Francisco aconteceram durante as férias, quase sempre à noite. Há ainda um endereço escondido na ficção: o restaurante da família de um dos alunos funciona de verdade no Bom Retiro.
A temporada completa, com oito episódios, já está disponível na Netflix, com criação de Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira.
