Foi vestindo um traje preto, sem uma única estrela ou listra dos Estados Unidos, que Steve Rogers ergueu o Mjolnir pela primeira vez nos quadrinhos — prova, segundo a própria mitologia Marvel, de que ele continuava sendo bom o bastante para o martelo de um deus reconhecê-lo, mesmo sem carregar mais o nome Capitão América. Essa fase nasceu há exatos 39 anos, em Captain America #337, e se tornou uma das identidades mais interessantes já criadas pela editora.

Por que Steve abandonou o escudo
Incapaz de reconciliar suas próprias convicções com o que o governo dos Estados Unidos exigia dele, Steve decidiu largar o manto de Capitão América. O posto foi assumido por John Walker, bem mais disposto a obedecer ordens de cima. Steve planejava se afastar de vez da vida de herói, mas — como sempre acontece com ele — não conseguiu ficar longe por muito tempo: quando antigos aliados o procuraram pedindo ajuda, ele não teve como recusar, e precisou de uma nova identidade para continuar agindo sem reivindicar de volta o título que havia cedido.
Um símbolo sem bandeira
A solução veio como uma versão preta do traje do Capitão América, sem qualquer elemento ligado diretamente aos Estados Unidos. Vestindo esse figurino, Steve passou a se chamar apenas “o Capitão” — não mais um símbolo do que a América poderia ou deveria ser, mas do que qualquer pessoa deveria ser, alguém a quem todos poderiam recorrer em busca de orientação, livre das amarras de pertencer a um único lugar ou ideologia. Foi justamente nessa fase, sem escudo nem bandeira, que ele ergueu o Mjolnir — talvez a declaração mais clara de que continuaria lutando por todos, aconteça o que acontecer.

Dois capitães, um só Caveira Vermelha
Enquanto Steve vestia o traje preto, John Walker atuava como o Capitão América oficial, nomeado pelo próprio governo — e seu amor incondicional pelo país frequentemente o colocava em rota de colisão com Steve, que sempre amou mais a ideia do que a América poderia ser do que sua realidade concreta. A reviravolta veio quando se revelou que o Caveira Vermelha estava por trás de toda a manobra que forçou Steve a abandonar o escudo: os dois Capitães precisaram unir forças para detê-lo, e Walker devolveu o manto logo depois.
Um traje que virou espelho
A história não parou por aí. Walker ressurgiu mais tarde vestindo o antigo traje preto de Steve, agora sob o nome de Agente Americano — transformando um figurino que antes representava liberdade em relação à América em símbolo da própria força do país, num paralelo direto e deliberado ao arco de Rogers.

O antivilão que Steve poderia ter sido
John Walker é um personagem complexo, mais próximo de um antivilão do que qualquer outra coisa, disposto a abrir mão da própria moral em nome de ordens ou do país — em seu pior momento, ele é o reflexo do que Steve poderia ter se tornado: um lacaio da América lutando por seus interesses, em vez de por seu sonho. O nome Agente Americano, aliás, ganhou vida também fora dos quadrinhos, quando Walker o adotou na série Falcão e o Soldado Invernal, incluindo a disputa pelo escudo original de Steve com o próprio Falcão. Devemos essa dinâmica inteira a uma única edição, publicada há 39 anos.
