Nos quadrinhos, o Wolverine tem 1,60m. Hugh Jackman tem 1,88m — e foi justamente essa diferença, entre outros fatores, que fez Kevin Feige e a produção de X-Men recusarem o ator num teste de elenco no fim dos anos 1990. O papel já tinha dono confirmado: o escocês Dougray Scott, anunciado publicamente, elogiado pelo próprio presidente do estúdio e com as câmeras já rodando em Toronto. Jackman só entrou em cena porque um acidente a milhares de quilômetros dali mudou tudo em questão de semanas.

Um acordo que parecia definitivo
A escalação de Scott foi noticiada por veículos especializados em 1999, com opção de contrato para uma sequência. Tom Rothman, então presidente da 20th Century Fox, chegou a assinar um comunicado elogiando o carisma, o físico e a intensidade do ator, além de destacar o quão exigente o diretor Bryan Singer havia sido na escolha — o tipo de declaração que só sai quando um estúdio considera a decisão praticamente encerrada.
O problema é que Scott já estava comprometido: Tom Cruise o havia escolhido pessoalmente para viver o vilão de Missão: Impossível 2, produção que atrasou bastante ao longo de 1999. Em outubro, Scott seguia no set de M:I-2, lesionado no ombro, exatamente quando a Fox precisava dele em duas semanas. A Paramount não o liberou, e a Fox iniciou um novo teste de elenco com seu próprio filme já em produção.
Três versões da mesma história, nunca reconciliadas
Em 2020, Scott deu sua própria explicação para o impasse:
“O Tom Cruise não me deixou fazer. Estávamos fazendo Missão: Impossível e ele meio que disse: você tem que ficar e terminar o filme. Eu disse que faria, mas também iria fazer esse outro trabalho. Por algum motivo, ele disse que eu não podia.”
— Dougray Scott
Scott reforçou essa versão um ano depois, alegando que apenas Cruise não conseguia enxergar como encaixar os dois cronogramas, enquanto os chefes dos estúdios estariam dispostos a ceder. Cruise, a Paramount e a produtora do próprio ator nunca responderam diretamente ao relato.

Já o roteirista de X-Men, David Hayter, conta uma história bem diferente: Singer, desconfiado com os atrasos, teria enviado o figurinista do filme até a Austrália para investigar — e a equipe descobriu que Scott havia se acidentado de moto durante as filmagens do clímax de M:I-2, ficando seriamente machucado, sem qualquer menção a Cruise nessa versão. Curiosamente, o próprio Scott já havia contado a história dessa forma em 2013, sete anos antes do nome de Cruise entrar no relato.
O ator “errado” virou o definitivo
Enquanto tudo isso acontecia, Jackman já havia sido recusado no teste ao lado de um jovem Kevin Feige, hoje presidente da Marvel Studios — em parte por ser considerado alto demais para o personagem. Quando a Fox precisou de um substituto às pressas, coube a ele o papel, e Jackman passou os 24 anos seguintes construindo a escalação mais duradoura da história do gênero, em dez filmes, com direito a indicação ao Oscar de roteiro por Logan (2018) e ao sucesso estrondoso de Deadpool & Wolverine (2024).
Scott, por sua vez, acabou conseguindo seu papel de quadrinhos — só que na DC, como o Coronel Jacob Kane, pai de Kate Kane, em duas temporadas de Batwoman. Décadas depois, fica claro que nenhum teste de elenco seria capaz de replicar a trajetória que Jackman construiu em torno daquele papel que, tecnicamente, nunca deveria ter sido dele.
