Quase toda mulher que se aproxima do Wolverine nos quadrinhos da Marvel acaba morrendo em algum arco marcante — Mariko Yashida, Silver Fox e Rose são exemplos clássicos desse padrão, sem falar no caso mais famoso de todos: Jean Grey e sua morte transformada em mito com a Fênix Negra. É exatamente por fugir dessa maldição que Melita Garner, jornalista sem poderes que namorou Logan nos anos 2000, se tornou uma das parceiras mais lembradas por leitores mais antigos do herói.
Uma reportagem que virou romance
Melita entrou na vida de Logan durante a reformulação da revista solo do Wolverine em 2003, período que reuniu nomes como Greg Rucka, Mark Millar, Jeph Loeb e John Romita Jr. no comando da publicação. Pouco depois, Jason Aaron assumiu o personagem ao lado do desenhista Ron Garney e mudou o cenário da história para San Francisco — foi lá que Logan salvou a repórter do San Francisco Post de um grupo de criminosos.

A partir dali nasceu uma parceria pouco explorada até então nas histórias do herói: Melita ajudou Logan a investigar um grupo que criava novos supersoldados revestidos de adamantium, e o relacionamento entre os dois cresceu aos poucos ao longo de “Wolverine: Arma X” e da revista “Wolverine” (Vol. 4). Diferente das outras parceiras marcantes do mutante, ela não tinha poderes nem era mutante — só coragem e faro jornalístico.
Por que os fãs esperavam o pior
Quem acompanha o Wolverine há tempos sabe reconhecer o padrão: assim que uma mulher se aproxima dele nos quadrinhos, a expectativa de uma morte trágica em algum arco de destaque aparece quase automaticamente. Foi exatamente essa a reação de boa parte dos leitores quando Melita apareceu nas páginas assinadas por Jason Aaron — a fama do mutante como herói trágico, que carrega o peso de perder quem ama, tornava essa previsão quase inevitável.
O final sem tragédia que a tornou especial
Só que Melita fugiu do roteiro esperado. Ela seguiu viva, mudou-se para Nova York depois dos eventos de “X-Men: O Cisma” e manteve o relacionamento com Logan até ele se envolver com Tempestade — um término sem mortes, quase banal para os padrões do personagem, mais parecido com uma separação de vida real do que com um arco trágico de quadrinho. Justamente por isso ela acabou ficando esquecida nas histórias seguintes, mas é essa ausência de tragédia que faz dela um caso raro na mitologia do herói: o Wolverine costuma ser definido pelo luto que carrega, e Melita quebra esse padrão simplesmente por continuar existindo, disponível para roteiristas que queiram resgatá-la.
Ela também encaixa em um arquétipo clássico dos quadrinhos, o da repórter atenta que ajuda o herói — o mesmo papel que Lois Lane ocupa ao lado do Superman. A diferença é que a história dela com Logan teve espaço para crescer com naturalidade, sem grandes eventos ou crossovers girando em torno dela. Talvez seja hora de a Marvel relembrar Melita Garner e devolver a ela o destaque que essa relação sempre mereceu.
