O problema da DC com os “filhos” do Superman

Poucos heróis são tão definidos pela figura paterna quanto o Superman: Jor-El o salvou colocando-o em uma nave, e Jonathan Kent moldou o caráter do garoto em uma fazenda no interior. Apesar disso, uma análise publicada pelo site ComicBook.com aponta um padrão incômodo nos quadrinhos da DC — quase todos os filhos do personagem foram criados para depois sumir.

Uma paternidade que demorou 77 anos

O número impressiona: foram 77 anos até o herói se tornar pai de forma permanente, com a chegada de Jon Kent. Para efeito de comparação, o casamento com Lois Lane também levou quase seis décadas para acontecer. Não que faltassem tentativas antes disso — na chamada Era de Prata, a editora publicava histórias declaradamente imaginárias, nas quais o herói aparecia rodeado de filhos, sem qualquer intenção de tornar aquilo oficial.

A lista de herdeiros descartados

O primeiro filho considerado canônico foi um jovem metamorfo adotado após a morte do próprio pai. Ele estreou e morreu na mesma edição, o que a análise trata como um sintoma do que viria depois. Vieram outros: uma filha concebida com outra heroína, uma jovem do futuro criada a partir do material genético do casal, um filho vindo de uma linha temporal alternativa, um garoto adotado que era herdeiro do General Zod e um rapaz que, anos mais tarde, se tornaria vilão. Mais recentemente, o casal adotou dois irmãos refugiados de Warworld.

O padrão que se repete

A tese do texto original é direta: a editora quer contar histórias sobre o herói como pai, mas evita assumir o compromisso de mantê-lo nessa condição. O resultado é sempre parecido — os personagens morrem, viram vilões ou simplesmente desaparecem sem explicação.

O antigo Thunderboy, que viria a se tornar Magog
O antigo Thunderboy, que viria a se tornar Magog (Reprodução/DC)

O caso mais citado é o do filho adotivo ligado a Zod: foi envelhecido de forma abrupta, rompeu com os pais adotivos e acabou do lado errado da história depois de uma daquelas reformulações que apagaram trechos inteiros da continuidade. Os irmãos adotados mais recentes enfrentam problema parecido — praticamente só aparecem nas revistas escritas por um único autor, e nas demais são ignorados, o que os transforma, na prática, em personagens de universo paralelo.

Existe uma explicação estrutural para isso: revistas mensais dependem de um estado de coisas estável, algo que qualquer leitor reconheça ao pegar uma edição pela primeira vez. Filhos crescem, mudam a dinâmica familiar e envelhecem o protagonista, e é justamente esse tipo de alteração que as editoras evitam.

A exceção chamada Jon Kent

Só um herdeiro conseguiu se firmar. Ainda assim, ele também foi envelhecido antes da hora, passou anos sem função clara antes de assumir o manto do pai em sua própria revista. Convém apresentar o outro lado do argumento: o receio da editora não é gratuito, já que o personagem é o rosto mais reconhecível da casa, e mudanças definitivas em uma figura desse porte costumam gerar reação intensa entre leitores antigos.

Vale acrescentar uma comparação que a análise original não faz: fora dos quadrinhos, a paternidade funcionou muito bem, bastando lembrar a série de televisão que colocou os filhos do casal no centro da trama por quatro temporadas. Fica, então, a pergunta que o texto original levanta — se a paternidade é parte essencial do Superman, por que ela segue sendo tratada como experimento temporário?

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