Criador de Akira define quem é o maior mangaká de todos os tempos

Katsuhiro Otomo não é homem de conceder entrevistas com frequência. Autor de Akira — obra que redesenhou os limites do mangá e do anime e segue influenciando artistas ao redor do planeta décadas depois de seu lançamento —, ele reserva suas raras aparições públicas para momentos que julga realmente importantes. Uma dessas ocasiões aconteceu durante as gravações do documentário TEZUKA! God of Manga, quando lhe perguntaram, sem rodeios, quem seria o maior autor de mangá de todos os tempos. A resposta veio sem hesitação: Osamu Tezuka, o chamado Deus do Mangá.

Por que Otomo aponta Tezuka como referência máxima

O depoimento integra o documentário TEZUKA! God of Manga, atualmente em campanha de financiamento coletivo, que pretende reunir relatos de grandes nomes da história em quadrinhos japonesa em torno da obra do mestre. Para o criador de Akira, o que torna Tezuka único não é apenas a quantidade de clássicos que produziu, mas a naturalidade com que transitava entre gêneros completamente distintos, do mangá voltado ao público infantil até narrativas adultas de ficção científica, sempre com o mesmo nível de entrega.

Tezuka era simplesmente incrível. É bobagem subestimá-lo. Hoje você pode ler muitos mangás, mas ninguém produziu tanto quanto ele. Ele conseguia escrever mangás para garotas, dramas de época, ficção científica. Tudo o que posso dizer é que é impressionante.

Vindo de quem vem, a declaração carrega peso extra. Osamu Tezuka é tido como a figura mais influente da história do mangá, e seu catálogo sustenta essa fama: Astro Boy, sua criação mais conhecida fora do Japão, é considerado um dos pilares da animação japonesa, mas seu trabalho vai muito além disso — passa pelo mangá shojo Princesa e o Cavaleiro, pela ficção científica de Metropolis (cujo roteiro para o anime foi assinado pelo próprio Otomo) e por obras adultas e filosóficas como Fênix e Buddha.

Astro Boy, obra mais famosa de Osamu Tezuka
Astro Boy, a obra mais famosa de Osamu Tezuka – Reprodução/Kobunsha

É justamente essa ligação direta entre os dois — Otomo escreveu o roteiro de Metropolis — que dá peso extra ao elogio. Não se trata de um admirador distante falando de longe, mas de alguém que já mergulhou no mesmo universo criativo de Tezuka e sabe exatamente o que aquelas ideias significam na prática. Mesmo sendo, ele mesmo, um dos nomes mais respeitados que o Japão já produziu, Otomo não hesitou em colocar Tezuka acima de si.

As referências que moldaram o mestre

Curiosamente, mesmo um artista da estatura de Tezuka teve suas próprias influências formativas. Otomo relembrou que o mestre foi profundamente marcado pelo cinema da Disney — a ponto de, segundo relatos, ter assistido a Bambi dezenas de vezes. Essa imersão ajudou a moldar a forma como Tezuka construía narrativas acessíveis, com personagens de olhos grandes e expressões marcantes que se tornaram marca registrada do mangá moderno.

Com o tempo, porém, o público japonês amadureceu e passou a exigir histórias com mais camadas, violência e ambiguidade moral. Tezuka respondeu a essa mudança se reinventando, produzindo obras de peso ainda maior sem nunca abrir mão da própria identidade criativa — uma capacidade de adaptação que poucos autores conseguem sustentar ao longo de décadas.

O preço de uma obra tão vasta

A admiração de Otomo, no entanto, não ignora o lado mais duro dessa trajetória. Ele tocou abertamente no custo humano por trás de uma produção tão extensa: Tezuka trabalhou de forma incansável até seus últimos dias, falecendo em 1989 sem jamais desacelerar. Essa realidade, infelizmente, ainda ecoa na indústria do mangá atual, onde relatos de rotinas extenuantes seguem sendo tema recorrente de debate.

Que o criador de Akira — ele próprio uma lenda da narrativa gráfica japonesa — tenha escolhido Osamu Tezuka como sua maior referência diz muito sobre a escala real do legado do Deus do Mangá. Certas grandezas, no fim das contas, não precisam de disputa: elas simplesmente se reconhecem.

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